sábado, 8 de setembro de 2012

Fundamentos


Pode a maleabilidade dos limites se apresentar ao longo da vida?
Quão flexível será o material que estrutura primariamente o ser?
Ambivalência originária temos nós: a fragilidade egóica é proporcionalmente presente à dureza de nossos muros. Sejam esses barreiras institucionais, sejam aprisionamentos existenciais. 

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A soma da subtração

O suprimido é isto, se historifica, é fotografia de ontem, é ausência na imagem de hoje e sempre uma possibilidade.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

São (mas nem tanto) Sebastião




De poucas lembranças da infância meu hoje é contemplado. O meu hoje é contemplado. O passado se anovela entre não saberes, entre incertezas se o que me vêm à mente foi vivido ou inventado.

Conservada em algum lugar e trazida à consciência, tomo a imagem da areia de cor bege, em um tom que acalma, eu poderia até mesmo apontar esse bege em uma escala Pantone. 

Posso sentir a umidade da areia e a maresia, o barulho que o mar faz, não somente no quebrar das ondas, mas desde quando se prepara para formá-las. 
O mar rouba a água que emprestou há pouco àquela faixa de areia, esse arrependimento tem um som, pronunciado quando arrasta o líquido com autoridade, mal conseguimos nos despedir da sensação gelada, ficam somente os pés afundados e o olhar para o mar pedindo mais, mais água, mais espuma, mais furinhos na areia, agora mais escura.

Posso sentir o medo de receber do mar algum bicho, escondido, rejeitado. Lembro-me da risada quando os siris apareciam. Adorava o esconde esconde nas tocas camufladas. A surpresa vinda do solo, a sensação de que as pessoas ocupavam um espaço que não era do homem, era do mar e daqueles siris. 

É pueril o fascínio por tudo isso, meu encanto por praia é uma memória deliciosa da minha vida, muito embora eu tenha minhas dúvidas se é memória ou invenção, uma viagem inventada ao passado. Uma viagem litorânea, ilhada, descolada da gente, do continente. 

Preciso tanto do real que desconfio dessas lembranças, mas são tão vívidas que podem passar sim por este crivo tão crítico que me acompanha. Afinal este amar o mar não é fanático, é neurótico. 
E os siris estavam lá.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O prazer é seu!

Não tem jeito, estamos sempre em busca de prazer!

O prazer é algo que se passa em cada um de nós, apenas. Embora tenhamos a necessidade de compartilha-lo, embora muitas vezes sentimos prazer porque outra pessoa está, por exemplo, feliz, o prazer é algo que sentimos muito individualmente.

O prazer gratuito, aquele que acontece sem qualquer esforço é igualmente interessante, ou melhor, igualmente prazeroso. Bom, “igualmente” pode ser contestado, cada um sente a seu modo, mas prazer inesperado é muito bom mesmo.

Tem o prazer pelo qual batalhamos, uma nota boa após ter estudado bastante, ou o prazer ao ver que os números apontados na balança são absolutamente compatíveis com o esforço de uma dieta. Tem o prazer de uma promoção no trabalho, de aprender uma coisa nova, de nadar no mar, de viajar, de ficar em casa, de comer um brigadeiro, uma fruta, de ganhar uma competição, de finalizar uma maratona, de pertencer a algo.

Tem também o prazer vindo como "recompensa", voltando ao assunto “dieta”, tema o qual me sinto absolutamente confortável para falar, porque convivo com esta questão desde que me conheço por gente, uma vida de alegrias, angústias, tristezas e prazer; enfim, se a balança é bacana, podemos ter o prazer de ultrapassar alguns limites ou - vejam como prazer é subjetivo! - de fazer uma dieta ainda mais severa e esperar por números ainda mais simpáticos na balança. Deste modo adiaríamos o prazer imediato, o que, convenhamos, requer esforço, disciplina, maturidade, esse tipo de personalidade tem minha total admiração! Puxa, não é fácil! Assim como o prazer em economizar, isso requer planejamento e foco, vale a pena aprendermos com essas pessoas!

Muito grosseiramente podemos dizer que Freud chamou este adiamento de princípio de realidade, muitas vezes regido por condições impostas pelo mundo exterior a nós. É como se, dada a realidade, procurássemos prazer diante das coisas que se apresentam para nós, e não o contrário. Esta é uma estratégia delicada, pois de um lado temos de fazer planos, querer mais, ter novos objetivos, procurar nos transformarmos, por outro precisamos "curtir" aquilo que temos, que conquistamos, e fundamentalmente, aquilo que somos! É a satisfação daquilo que é real.

Efetivamente transitamos pelos antagonismos da vida. Que bom, porque tão saudável quanto aproveitarmos os prazeres que surgem, por esforço ou surpresa, é lidarmos com os dissabores da vida.

Se me permite uma dica, procure ter prazer com as coisas simples da vida, mas sonhe com as grandiosas!

Se me permite outra dica, procure viver em equilíbrio; e de vez em quando, abandone completamente esta ideia!

Beijos
Andréa


Escrito para - e também disponível no - portal: Uma Mãe das Arábias

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Ele, o esporte!


A gente fala tanto que as crianças têm de fazer várias atividades, mas outras vezes nos pegamos sufocando os pequenos; é natação, judô, inglês, reforço escolar, teatro, sei lá mais o quê, aliás, nem sei o que está em voga, como não tenho filhos faço uma referência ao que era moda na minha época.

Se por um lado o excesso de informações e atividades tira qualquer um do prumo, imagine o tanto de coisas que as crianças devem se preocupar por estarem sempre ocupadas. Lembremos da importância do brincar para a criança, é na brincadeira onde crescemos; mais adequadamente podemos dizer, pela brincadeira nos desenvolvemos!

De todo modo meu voto vai também – e principalmente - para o esporte.

Outro dia tive um aniversário de um amigo que conheci quando era criança, através do esporte, foi tão bacana porque várias pessoas que estavam ali eram amigos por causa do esporte, e muitos deles permaneceream neste ambiente, formaram-se em educação física e trabalham com isso.

Deve fazer mais ou menos uns 20 anos eu não estou neste meio, ou seja, que eu não faço esporte. Pronto, falei! Ai, é horrível dizer isso!

Bom, mas o fato é que percebi como aquele grupo se mantinha próximo, tivemos um passado juntos e aquilo fora suficiente para horas de conversas, falamos sobre nossas viagens juntos, aventuras, sobre a "nossa turma do esporte", muito bom!

Esporte tem grupo (mesmo os esportes individuais!), tem energia, disciplina, tem brincadeira, contato com a natureza, com o corpo, tem também o contato com as possibilidades, e também com os limites.

Falar sobre os benefícios da prática esportiva parece “chover no molhado”, mas vale a pena listarmos o quão bacana é  tudo isso é, foi assim para mim.

Eu gostava tanto que fiz um poema há.... credo! ...19 anos!!

Relendo o poema, notei que é uma das poucas escritas no passado...digamos, há mais de quatro anos, que eu não mudaria nada.

Uma vez o Edu, meu marido, me deu de presente um porta-joias pintado por ele, e o que ele desenhou e pintou, foi feito por causa deste poema!!

Se este texto fosse uma fábula, o preceito moral seria: apresente o esporte ao seu filho; dentro das possibilidades, incentive sempre sua prática!

 E como não poderia deixar de ser, o poema:

O mundo seria mais tranquilo se todas as

pessoas tivessem remado ao menos uma vez.

E durante esse ato quase previsível, inerte,

instintivo, sentissem o vento, ou o sol,

ou a chuva ou os três, mostrando sua cara na cara

de quem sente cada fibra do corpo sorrindo

bem perto da água, tranquila ou não.

E em quem percebe o caminho que os músculos seguem,

às vezes sem sintonia, quase errado,

às vezes cem sintonias, perfeito.

Não dá pra fingir quando se rema,

até dá, mas a mentira perde, perde feio,

e aí se perde muito e fica feio.

O mundo seria mais tranquilo se todas as

pessoas tivessem remado ao menos uma vez...

Os esquimós foram grandiosos

na construção de casas que os abrigavam do frio;

e elas eram de gelo.

Os esquimós... remam.


Beijos
Andréa

quinta-feira, 22 de março de 2012

O que representou, para mim, o professor Júlio César Voltarelli


Sempre que me refiro a algo sobre o trabalho que exerci na ONG Movitae (de incentivo às pesquisas com células-tronco) o faço na terceira pessoa do plural, e não poderia ser diferente, o projeto representava pacientes e seus familiares, e boa parte da comunidade científica.
Hoje não vou me furtar de explicitar o sentido que tem, para mim, esta perda.


O professor Julio Voltarelli foi o primeiro cientista, que não acompanhou diretamente a fundação da ONG e que acreditou no trabalho. Eu lembro quando ele comprou a primeira camiseta, simbolizando sua adesão, sua escolha em participar de tudo isso.

Lembro que era "fácil" ligar para ele, escrever, não tinha arrogância, tinha vontade. Era prazeroso ouvi-lo, ele falava sobre sua vida, não só sobre medicina, falava igual "a gente", tinha história, e a dividia.
O Professor teve inúmeros cargos de elevada representação acadêmica; para mim era o Julio, conselheiro da Movitae, cujo respeito e imensa admiração iam além da sua titulação.

A possibilidade de acesso a ele, a aproximação permitida, incentivada, foi fundamental para o bom resultado do trabalho da Movitae.

Eu sabia que ele era bom, bom na profissão que escolheu, que curou, que dava vontade de ficar conversando, que mostrou a diversos lugares do mundo - assim como muitos pesquisadores - que temos (agora sim falo em nome de todos!) privilegiado capital humano na ciência brasileira.

Eu sabia que ele era assim, humano, humanista ouso dizer, eu só não sabia que ele morreria algum dia.

Obrigada, professor e meu imenso carinho à sua família.

Andréa Albuquerque







domingo, 18 de março de 2012

Mundo virtual: faniquito!



Recebi um email da Barbara Saleh, querida editora do portal, lembrando-me que era dia de entrega de texto. 

Eu queria muito escrever sobre a importância do contato humano, mas não consigo fazê-lo da forma como eu gostaria: poeticamente; porque sempre que me refiro a este assunto, o faço em contraponto aos relacionamentos virtuais e aos relacionamentos das pessoas com a tecnologia, e não consegui ainda, versar sobre o tema.

Eu já comentei algumas vezes sobre o meu "problema" com a tecnologia, de tempos em tempos tenho algumas crises, que geram uma vontade imensa de apagar todos meus emails, sair do twitter, facebook, essas coisas. Certamente muito de vocês também têm essas crises. Me digam!

Três amigos queridos (reais e virtuais) - e que não se conhecem - informaram em seus perfis que deixariam as redes sociais. A ação não durou uma semana. Foram meus heróis durante sete dias!

Admiro também aqueles que nunca deram a primeira postada!

Sim, eu sei que o equilíbrio é tudo, que podemos tirar o melhor dos dois mundos, tal, tal, tal, é do que tentam me convencer quando tenho esses chiliques; mas chilique é chilique, é para ser radical mesmo.

Certa vez uma chefe falou que se ganhasse na mega sena, atiraria o computador do décimo primeiro andar, possivelmente eu abriria a janela para ajudá-la.

E assim se dá a relação de amor e ódio com a tecnologia, afinal têm coisas bacanas por aí, na rede, nos aparelhos modernos, mas hoje não é dia de defendê-los!

Ano passado me chamou muito a atenção uma matéria que dizia que para manter a concentração no nível máximo nos treinos, Cesar Cielo evitará a internet até o fim das olimpíadas de Londres.
Bastante relevante se pensarmos o que acarreta esse apego à tecnologia, não é mesmo?

Enfim, muito se tem falado sobre o excesso de informação que recebemos, de como isso é, com o perdão da redundância, excessivo, desgastante.

O chilique é, possivelmente, decorrente deste excesso, desta necessidade de estar ligada, não sei dizer, um pouco de culpa até, e olha que faço uso dessas redes com muita parcimônia.

Esta semana iniciei um curso, talvez eu escreva um dia sobre isso, hoje ainda quero absorver um pouco mais, mas devo adiantar que realmente nada substitui o contato humano.
Nada substitui o contato humano? Óbvio! Isso parece lugar comum, frase feita, mas a gente entra nesse ciclo tecnológico e frequentemente não se dá conta do quão vital é o contato real.

E com a ironia que a tecnologia e vida nos apresentam, aqui estou eu, falando com vocês, pelo computador, - e nem em tempo real é!

Mas tudo bem, a gente se vê, preferencialmente, pessoalmente!!

Beijos clicados e abraço apertado!
Andréa


18/03/2012
Escrito para - e também disponível no - portal: Uma Mãe das Arábias