segunda-feira, 23 de março de 2015

O próximo trem lotado de vazios... ?

Hoje, bem cedinho, o radio anunciava paralisação em várias linhas de trens e metrô, pelo excesso de pessoas e início de confusão, as escadas-rolante foram desativadas. Excesso de indivíduos, escassez da tão bela oportunidade de ser percebido como outra pessoa, diferente, mas parecida com você, alguém que tb tem hora para chegar, tb acordou cedo... Mas tudo q se deseja é que o outro não seja tão esperto, tão ágil, tão forte; não perceba o espaço mínimo entre a plataforma e a porta, que não desça correndo como vc, não seja forte para empurrar gente ou segurar a porta. É uma mistura selvagem, só há espaço entre arriscar-se e temer, entre pressa e pavor, entre indiferença à fragilidade e ela mesma. Quem é menor, mais fraco, nao embarca, perde o trem, perde o que se tem, falta o ar, o trabalho, tudo falta ali, a dignidade até.




E querendo sacudir o mundo para que todos se olhem, segui o dia, com medo de por alguma bobeira, eu deixasse de ver o mundo de alguém que eu pudesse ajudar. 
A noite, feliz por estar pertinho de casa, paro no mercado e vejo três vagas como a da foto, se a pessoa já foi ao mercado, para quê deixar espaço para O PRÓXIMO ESTACIONAR?? Fotografei uma para ilustrar esse desabafo, ... 
Um carrinho sozinho, um trem lotado, duas possibilidades de sermos solidários, mas tudo que notamos é indiferença e solidão.
Sigamos pensando que tudo vai melhorar...




quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Tortura Nunca Mais

Monumento Costa e Silva é derrubado

"Cai um rei de espadas", como cantaram Elis Regina e Ivan Lins...
Não sei se foi bom ou ruim a ação em si , porque o que houve no regime militar não devemos esquecer, mas a simbologia da "queda" foi muito interessante e vale a reflexão. 
De acordo com o Grupo Tortura Nunca Mais, o relatório da Comissão da Verdade ainda é superficial. 
Continuemos atentos, então, aos trabalhos acerca deste período, pois o esquecimento desresponsabiliza.

LEIA MAIS: 

Comissão da Verdade responsabiliza 377 por crimes durante a ditadura


Roda e avisa.... a 'pureza' vai além da cama!

Leia em....

Chega de Machismo!!


domingo, 2 de novembro de 2014

Como permanecer..de algum modo?

Em seu livro "De frente para o Sol", Yalom nos desafia a ir ao encontro do que, tantas vezes, tememos; o título remete ao belo (e real) pensamento de Le Rochefoucauld, de que "nem para o sol, nem para a morte, nós conseguimos olhar fixamente". (ou pelo menos, não por muto tempo).
Contradizendo um pouco isto, a lucidez da minha mãe acho que lembra mais a poesia de Raulzito "O caminho do risco é o sucesso. O acaso é a sorte. O da dor é o amigo
O caminho da vida é a morte!"

Não ser egoísta, doar-se, ajudar, pensar no próximo...
Não lembro de ensinamentos vindos da minha mãe que não tenham como base, o fato de preocupar-se com o bem das pessoas. 
Ela faz isso, sempre fez isso e pelo visto continuará fazendo...

Estou certa de que todos os seus seis filhos têm isso muito arraigado. 
Caso contrário não teríamos compreendido perfeitamente sua decisão, e assinado, nós seis, o termo de declaração de vontade e testemunho de doação voluntária de corpo para estudo anatômico.

Doação de Órgãos (galera, bora doar! é importante deixar isso claro para a família) é quase óbvio para a gente...  mas a minha mãe foi além, e declarou (registrado em cartório) a doação do corpo para o Departamento de Anatomia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. 

A proposta é incrível e até minha mãe falar sobre o assunto, eu desconhecia.
Quem nunca pensou sobre isso, sobre a vida, o depois... por que não?

Ótima semana, ótima existência!!
Déia

Saiba mais clicando na imagem:




Dia 02/11

Eu odeio chorar, porque entope o meu nariz, mas se a gente não chora, fica tudo meio sufocado mesmo.
Hoje é feriado de "finados"...estranho...aquilo que não existe mais, que faleceu, aquilo que falta, que expira.
Apesar de ter 'caído' em um domingo, o feriado sempre tem um quê de celebração, talvez comemorar o dia de finados não seja bem o termo, muito embora existam belíssimos festejos, como o "Día de Los Muertos", no México, quando os mortos têm permissão de vir à terra visitar os entes queridos.
Quem dera...
Caramba, a saudade fica nos espiando o tempo todo, e as vezes dá o bote, como uma cobra paciente, que aguarda um passo inseguro no mato alto.
Da psicanálise freudiana às mais novas descobertas da neurociência, do ceticismo secular às crenças ao sobrenatural, da elevação dos espíritos àqueles que acreditam ao nada depois daqui, certamente explicar-se-á, um dia, porque dói, no meio do peito, a falta de quem não volta mais.
A emoção não tem preconceito, ela não tá nem aí para o que você acredita, ou não acredita, ela te espreme tanto num abraço solitário, que salga o rosto, com a água dos olhos.

Ao meu pai.
Andréa Albuquerque.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

25/03 em 11/10

A 25....

Fui com o propósito de fazer uma única compra: a de uma armação de óculos... 
Nossa, há tempos eu não visitava aquela dinâmica maluca no centro da cidade de São Paulo.
Parece que a economia foi significativa; mas na ponta do lápis, computando o pastel de palmito, o estacionamento, o damasco do mercadão, o vidro de pimenta biquinho, sabe-se lá se uma ótica no shopping Eldorado, com parcelamento amigável, não teria efeito maior....

Vinte e cinco de março é lugar de muitos idiomas, de paz entre tantas etnias, de guerra entre lojistas e camelôs. Lugar de cometer erro ao confundir, por ignorância, chineses e coreanos. Lugar de contrabando, de contramão, de verdade e de falsificações. 

Próximo dali o Mercado Municipal com frutas coloridas, cheirosas, aroma confuso da mistura de bolinho de bacalhau, com temperos dos mais variados, cheiro de empório, cheiro de mortadela.
Tudo naquele entorno transpira a São Paulo popular, lugar que recebe as pessoas indiscriminadamente. E ironicamente, pois tem uma inospitalidade instaurada, pela falta de espaço, pelas calçadas incertas, trépidas, pelo mau cheiro que escoa rumo aos bueiros entupidos, nas ruas acinzentadas.
Li que o nome 25 de Março oriunda da data de juramento da primeira constituição do Brasil independente; no entanto, não é possível saber qual lei ali impera na atualidade, qual juramento prevalece.



Ladeira Porto Geral acima, no metro São Bento habitam por alguns instantes os rostos ora cansados, ora animados, missão cumprida, de tantos compradores, corpos suados, sacolas imensas sendo arrastadas, crianças também, por suas mães, que as reprimem por usarem os brinquedos que foram comprados uma hora antes, iniciando uma esquizofrenia exaustiva a todos, causada pelo desgaste da caminhada e pelo consumismo exacerbado.
Assustador também o número de pais que levavam bebes que aparentavam ter menos de 2 anos, parecem tão insalubres, o local e a atitude.

Mas ali está, e estará por muito tempo, a 25 de março é de todos nós, um espaço público curioso, paulistano, plural, de dores, de sonhos, de planos...
Queria muito saber a história de tantos que ali estão, como o do vendedor de baterias, que parecia gentil com todos, de rosto forte, mas amigável, com português sonoro no mais interessante sotaque árabe. 
Tudo ali parecia confuso e em paz, na ambiguidade que só o centro torna capaz.
Finalizo esta reflexão nesta rima tola, com saudade deste passeio, que desperta a loucura de ter sentimentos opostos: a vontade de não querer voltar tão cedo, mas o desejo de estar ali, comendo pastel, esbarrando em tantas vidas...